Capítulo I - Preparando o Terreno
Talvez eu mereça os parabéns por, no mínimo, ser persistente. Pra quem não tinha tempo pra nada, muito menos disposição, voltar aqui pela terceira noite seguida é um marco pra se valorizar, ainda que não esteja muito ciente sobre o que preciso falar. Isso, porém, irei recuperar com o tempo e a prática. Aliás, ouso dizer que já sinto a diferença. Eu sei, só foram duas noites, três com essa, mas já os pensamentos já fluem com mais facilidade. Não posso levar em conta a primeira noite, pois é fácil dizer que faz tempo que não venho aqui e que preciso voltar a frequentar esse espaço. Já fiz isso várias vezes. Posso muito bem ter que fazer novamente.
Esse é um ponto importante, aliás. Me sinto um pouco mais motivado pra tentar novamente, nesse lugar. Voltar a transcrever meus pensamentos. Voltar a pensar. Mas, antes de falar sobre um recomeço, preciso falar sobre o principal obstáculo. E não há motivos para esconder ou disfarçar. Muitas vezes que não apareci aqui foi por pura preguiça. Ainda que me sinto cada vez mais sem energia pra isso, além de dedicar mais e mais tempo pra faculdade e outras responsabilidades, o que pesa na hora de decidir se é melhor exercitar os dedos (e o cérebro) ou deitar e aproveitar o máximo que puder do pouco tempo de sono, é a vontade própria. Coragem, ânimo, energia, disposição, saco, peito, como queira chamar. Preguiça e sono são irmãs próximas, muito amigas, que sempre se ajudam, até trocam roupas íntimas. E eu escolhi o pior horário pra essas transcrições, caso eu queira vencê-las. Horário propício pra estar no terceiro sonho, após voltar exausto de aulas maçantes e rigorosas da faculdade.
Em verdade, sejamos sinceros: a faculdade é apenas um agravante. Sempre fui bem amigo da preguiça, desde muito antes do ensino superior. Desde antes de começar a buscá-lo. Em verdade, bem antes de aprender equações de primeiro grau. Conforme a minha memória (pouco confiável, mas totalmente segura em relação à esse fato) me diz, desde quando eu estava na segunda série do Fundamental.
Já me meti em muita confusão, estraguei relacionamentos, deixei escapar grandes oportunidades, e acumulei grandes arrependimentos, tudo por causa da preguiça. Porém, foram poucas as vezes que corri atrás para recuperar o tempo perdido. Recuperar qualquer coisa que tenha perdido. E não o fiz por motivos óbvios. Tenho preguiça de pensar mais que o normal, quiçá me esforçar para reverter o prejuízo que tive.
Na escola, onde tudo "começou", houve um momento em que eu encontrei uma desculpa pra minha indisposição. Pra ser mais justo, devo dizer que encontrei um meio de me livrar da culpa, passando para outros. Tudo porque, até a primeira série, sempre ouvi dos mais velhos - professores, parentes, amigos, conhecidos, qualquer um - que eu era muito inteligente pra uma criança daquela idade. Eu estava adiantado demais pra ainda estar entrando na escola. E que eu ainda iria muito longe, e blá blá blá. Não que eu não gostasse de ouvir isso, nada disso. Eu ficava sem jeito, assim como fico hoje em dia, com outros (poucos) elogios que não sei responder. E era inocente demais pra me sentir superior as outras crianças. Mas comecei a me acomodar com isso, além das facilidades que o mundo oferece para as crianças, de modo geral. No ano seguinte, começava a me questionar sobre as atividades extraclasse. Pra quê fazer tarefa de casa, se isso não vale nota? E, mesmo se valesse, só a partir da quinta série que eu poderia ser reprovado. E esse pensamento foi crescendo comigo até a dita quinta série, quando eu já nem trabalhos escolares fazia mais. Não os individuais. E isso me levou à "ruína" na sexta série, quando reprovei. Contudo, a preguiça já era tão bem desenvolvida, tínhamos uma relação tão forte, que não mudei. Não me esforcei pra mudar meu jeito de ser e passar nas matérias com louvor. Meu único esforço foi para que os professores passassem mais trabalhos em grupo, e não individuais. Se mais pessoas se envolvessem, dependendo de mim, eu faria. Aliás, isso é algo que, inconscientemente, trago até os dias atuais. Tentar colocar mais pessoas ao meu redor, pra me ajudar a ajudá-las. E precisarei muito disso, pois escolhi uma área de atuação em que o trabalho de equipe e a liderança são essenciais
Entretanto, ainda tenho muito a aprender. Estou a quilômetros de distância de ser alguém com mais vigor para encarar a rotina. Mas posso dizer que estou tornando um hábito, trazer pessoas para meu convívio, para um bem mútuo. Não tão hábito quanto gostaria, mas já tem uma certa frequência.
De qualquer modo, o ponto chave desse capítulo é essa barreira que me impede de ir além. Não só aqui, com essas transcrições. Mas na vida, em todos os aspectos. O que quero aqui não é dizer que irei superá-la, que irei ser mais ativo, que irei atrás de motivação para o que me aguarda. Não posso ser hipócrita, sei que isso é difícil, pra não dizer impossível. Quero apenas registrar a provável razão da minha próxima ausência, quando ela ocorrer. E que, se eu não chegar ao tal "recomeço" que espero, a minha consciência fica parcialmente tranquila, pois já me justifiquei. Ao menos eu tentei.
Aliás, que bela ironia. Nessa minha nova passagem, o maior texto que escrevi foi justamente o que falei sobre a minha preguiça. Mais irônico, pois não a senti enquanto escrevia.
Na verdade, estou começando a ficar preocupado com ela. Já é tarde e ainda não me mandou mensagem, nem ligou. Vou me deitar pra ver como ela está. Mesmo que ela me faça mal, somos amigos de infância. Não é tão simples desfazer uma ligação dessas.
Na verdade, estou começando a ficar preocupado com ela. Já é tarde e ainda não me mandou mensagem, nem ligou. Vou me deitar pra ver como ela está. Mesmo que ela me faça mal, somos amigos de infância. Não é tão simples desfazer uma ligação dessas.
É uma relação complicada, pra ser sincero. E não vou tentar explicá-la, pois a preguiça não deixa.
Comentários
Postar um comentário